Oliveira Salazar escondia “os pobrezinhos” das barracas quando o visitavam estadistas estrangeiros. Pedro Passos Coelho escondeu os manifestantes de Angela Merkel. Os transportes públicos foram desviados a partir da zona de Alcântara. Belém ficou isolada. Centenas de polícias impediam as pessoas vindas do Cais do Sodré de circular a partir da Rua da Junqueira – e nem mesmo os peões (!) O contingente policial (em número absurdamente desproporcionado em homens e meios) cercou o CCB, tornando especialmente difícil o acesso ao local onde os manifestantes foram autorizados a protestar – distantes da entrada do CCB o suficiente para não serem ouvidos de lá, escondidos no meios dos jardins de Belém, por detrás de grades e de cordões de polícias de choque. O boicote acabou por funcionar e muitos desmobilizaram antes mesmo de conseguirem chegar perto. Ainda assim, a polícia manteve-se no local até ao cair da noite, e helicópteros sobrevoaram regularmente o pequeno ajuntamento de protestantes até tarde.

Triste demonstração de como se reprimem os protestos populares sem fazer feridos, circunscrevendo-os – ao custo dos comércios sem clientes durante todas essas horas e das vidas dos habitantes e trabalhadores locais transformadas num Inferno pela falta de transportes e pelas ruas fechadas à circulação automóvel. Assim se manteve a chancelerina longe do povo, usando o espaço público (e dispondo das vidas dos cidadãos por ele abrangidos) como se uma propriedade privada, e os polícias pagos por nós para nos impedirem, pela força das armas e das viseiras de choque, de dizer à senhora que chegou e partiu enganada, pois não haverá maneira de executar o Orçamento do contentamento de Gaspar.

Anúncios