“Capitalismo é guerra, guerra ao capitalismo”, leio numa parede por aí. Ora aí está, a guerra, na sua versão camuflada e jamais verdadeiramente dita, “a revolução tranquila” a que se referia Passos Coelho há uns meses, embora de tranquila nada tenha, nem para os governantes, nem, sobretudo, para o povo, pois não morreremos tranquilamente, ao contrário do que o Primeiro ministro pretendeu na sua abstrusa propaganda de preparação do seu ‘tranquilo’ assalto ao Estado democrático.

Se há uns tempos (nem tanto assim distantes) a simples palavra capitalismo era sem demoras tornada objecto de troça (porque elemento constitutivo das retóricas marxistas, que caminhavam em contracorrente com a História), nunca como agora ela foi tão real, na triste matéria de que são feitos os dias da generalidade dos portugueses, obrigados por governos eleitos pelas abstenções de demasiados (e também das dos partidos políticos, comprometidos com um sistema eleitoral que é a negação da própria democracia) a existir sem qualquer esperança no Futuro – eis quanto a ela uma palavra varrida do horizonte (e também esse deixou de se avistar, e até mesmo para quem «da [sua] Língua [vê] o Mar») pelo Presente. Só há Presente, e o seu reverso, naturalmente, nos temores das visões do Passado que habitam o espírito de tantos. Só há Presente, e não é bonito nem tranquilo.

E não resisto e retomo Vergílio Ferreira, no seu discurso de 1991, na Europália, em Bruxelas: «O orgulho não é um exclusivo dos grandes países, porque ele não tem que ver com a extensão de um território, mas com a extensão da alma que o preencheu. A alma do meu país teve o tamanho do mundo. Estamos celebrando a gesta dos portugueses nos seus descobrimentos. Será decerto a altura de a Europa celebrar também o que deles projectou na extraordinária revolução da sua cultura. Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade. Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor como na de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi em nós a da nossa inquietação. Assim o apelo que vinha dele foi o apelo que ia de nós. E foi nessa consubstanciação que um novo espírito se formou, como foi outro o espírito da Europa inteira na reconversão total das suas evidências.»

Imagem destaque: a capa do livro de Sylvie Bailly La Guerre entre les banques juives et protestantes : à l’origine de la crise financière, publicado em Junho de 2012 pela JOURDAN.

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