Há um problema gravíssimo associado à execução das reformas que se procuram levar a cabo por estes dias em Portugal. Um problema que fere os princípios consagrados na Lei Fundamental (que naturalmente se procura também reformar), de razões mantidas inalteradas pelo pensamento humanista que ontem como hoje deve presidir aos fundamentos legais dos estados democráticos. Bem sei que a palavra humanismo anda pelas ruas da amargura, como se fosse uma afronta, ou uma velha ideologia (eis mais uma palavra banida pelas linguagens oficiais) sem razão de ser nos dias de hoje, mas seria bom que não fosse jamais esquecida, pois não temos outra para defender a generalidade das pessoas dessas outras que, movidas por obscuros e lamentáveis sonhos de poder, estão a destruir as vidas de tantos.

É esse o problema grave, o obstáculo que se procura (e se vai conseguindo) contornar, apesar da retórica que o desmente: as pessoas, cujas dificuldades as reformas cegas não observam, como se o propósito da política não fosse justamente o de fazê-lo, defendendo em nome delas compromissos que não favoreçam a quebra da paz social. Ontem em S. Bento, durante uma manifestação, um homem emocionou-se enquanto explicava a uma televisão por que razão protestava. É que não encontrava na sua experiência de vida nenhum outro momento como este, tão gravemente injusto e indiferente às pessoas – de uma indiferença nova em todo o seu horror bestial, que o senhor, de idade já madura, não conseguia sequer comparar aos tempos mais duros do antigo regime em Portugal. É essa a razão principal que leva os manifestantes a juntar-se cada vez mais regularmente para protestar: o sofrimento concreto da maioria das pessoas no país, e a indignação perante a indiferença que os governantes dedicam aos seus protestos – perplexidade em que cabem todos os insultos capazes de equivaler à violência inédita das medidas.

Governar contra o povo
Desenganem-se os que acreditam na metamorfose ordeira do Mundo: a História é violência, e os dias que vivemos comprovam-no. À violência de uns segue-se, inexoravelmente, a violência de outros, gerada pela revolta. “Parece mentira”, dizem-me os meus familiares em França: parece-lhes mentira que os governantes em Portugal não possam livremente sair à rua, que constantemente sejam insultados pelo povo, que fujam dele, que votem o orçamento de Estado numa correria para não ter de enfrentá-lo na rua, que tomem medidas importantes às escondidas, que não se demitam e governem contra o povo, como criminosos numa cadeia dourada – policiada pelos nossos polícias, pagos por nós, e que durante essas manifestações o povo também insulta, enquanto tenta ganhá-los para a luta que também é a deles. “Em França isso seria impensável”, dizem-me, apesar de também ali a especulação financeira internacional ter tomado as rédeas dos poderes políticos e estar a fazer milhares de baixas na classe média e a gerar uma quantidade preocupante de sem-abrigo, em cada vez maior número nas ruas de Paris, por exemplo.

Em Portugal, e apesar de todas as dificuldades crescentes de uma população grandemente constituída por pobres (gerados pelos ciclos de pobreza endémica que não se conseguiu desde o 25 de Abril até hoje verdadeiramente atenuar, malgrado o relativo desenvolvimento favorecido pelas políticas sociais do Estado democrático), a revolta toma desde há uns meses novos contornos e protagonistas. É uma revolta nova, que muitas vezes não tem já razões corporativas, de defesa de interesses de classes profissionais específicas. Tão pouco é uma revolta organizada, no sentido em que o são os movimentos contidos dentro dos contextos sindicais e/ou partidários. É uma revolta que se dirige não já aos partidos dos actuais governantes (votados pela maioria de votantes que corresponde a uma minoria de eleitores, convém não esquecê-lo) mas às figuras de topo que os representam: Passos Coelho, Paulo Portas, Vítor Gaspar, cujas acções surjem cada vez mais e a cada vez maior número de pessoas como o resultado de uma política que não as defende, muito pelo contrário, que impiedosamente as ataca em todas as frentes das suas vidas frágeis – e a gradual supressão dos serviços públicos e privatização das responsabilidades sociais provam-no.

Vai ser preciso sangue
De que valem essas palavras dos discursos da austeridade virtuosa para colher amanhã se as pessoas se debatem HOJE com gravíssimos problemas de sobrevivência? Essas pessoas não vão poder pagar os impostos que o Orçamento de Estado ontem votado preconiza – dos mais pobres aos mais remediados. E o irrealismo obstinado dos que defendem a via do empobrecimento a qualquer custo (ao custo da morte, como se verá quando começarem a morrer de forma visível os que não têm meios para se tratarem, entregando-se à morte como a um alívio), indiferentes à matança (i.e., a máquina de morte que representam essas medidas políticas) é uma ofensa às pessoas. Uma ofensa irreparável, que vai provocar muito mais do que perdas eleitorais para os actuais reformadores.

“Vai ser preciso sangue”, lia-se ontem num cartaz empunhado por uma manifestante. Horas antes, um estivador anunciara: “É até à morte.” Assim é quando já se perdeu tudo: o emprego, os direitos adquiridos (conquistados pela luta dos muitos que morreram por eles – e os julgamentos que não se fizeram ainda dos crimes do Estado Novo não significam que as pessoas os tenham esquecido), a confiança na classe política, a alegria de viver, os projectos de vida, toda a esperança.

Imagem destaque © S.A.

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