“Somos todos estivadores”, gritavam no outro dia uns manifestantes à frente do Parlamento português. Não eram, claro, mas aquele anúncio era a um tempo um grito solidário com a luta dos estivadores (em greve resiliente há já várias semanas) e uma maneira de dizer que todos ali eram um mesmo: aquele que não aceita ver a sua vida subvertida e destruída em todas as frentes pelos homens de negócios que nos governam.

E no entanto, talvez nunca como por estes dias tenhamos tantos estado tão próximos dos estivadores, pois a vida da generalidade contém hoje essa dureza que até há pouco tempo era condição dos da estiva, dos que nos portos descarregam e carregam os contentores das mercadorias das economias, dos que os colocam nos navios, realizando todos esses trabalhos pesados que acontecem nos portos mercantis da nossa modernidade analógica, e que dependem grandemente da força dos braços – mas também do espírito que os mantêm firmes na labuta bruta.

«Tipos perfeitos da raça» (Bernardo Santareno sobre os pescadores das campanhas bacalhoeiras durante o antigo regime) no fim de contas, de «riso claro e feroz (…) [capazes de] milagres de força», e que ao arrepio do medo endémico que paralisa os portugueses (carne para os canhões dos pais tiranos, de quem os paralisados aceitam todos os abusos), olham com coragem para a realidade e arregaçam as mangas para fazer o que for preciso para mudá-la.

Anúncios