the-raping-of-europe_erasmus_Quellinus_1607_1678

No começo de tudo quem mandava era Zeus, o mais sortudo dos filhos do Tempo (Cronos) que, conseguindo escapar ao grande apetite do pai (famoso comedor da própria descendência), tomou o seu destino em mãos, vindo a unir-se a Europa, uma ninfa que conheceu na Fenícia certo dia em que ela estava com umas amigas a apanhar conchinhas à beira-mar. Zeus e Europa tiveram três filhos, entre os quais Minos, que viria a tornar-se muito poderoso, reinando em Cnossos – cidade-labirinto onde jazem ainda hoje (em Creta) o primeiro trono, a primeira banheira, o primeiro sistema de canalização de águas, a primeira estrada e o primeiro teatro do Ocidente.

À falta de melhor critério, Zeus determinava o destino de todos fazendo apelo a uns jarrões que tinha à porta da caverna onde vivia – contendo um apenas coisas boas, e o outro somente coisas más. Assim, Zeus dava a uns (muito poucos, crê-se) uma vida muito boa, a outros (acredita-se que a maioria) uma vida muito má, e aos restantes uma vida mais-ou-menos, que era quando ele retirava coisas dos dois jarrões. O princípio e o padrão mantiveram-se até aos dias de hoje, perpetuando composições sociais profundamente diferenciadas e injustas, e que, malgrado os ensejos democratizadores que a roda do tempo tem demonstrado circulares (i.e. a que se regressa eternamente), se reproduzem por toda a parte, num imparável movimento que faz suceder a tirania e a repressão à libertação dos povos que levam por diante as revoluções.

Considerando ou não a História dessa forma (com mitológico fatalismo e deprimente determinismo), calhou-nos em sorte e azar um momento de charneira, de fronteira entre um e outro tempo. O Conselho Nobel, num acto verdadeiramente político, e que ultrapassa em muito os propósitos das distinções que premeiam os melhores, entregou à União Europeia um prémio que indignou os muitos que reclamam da sua justeza. Encaro-o como um aviso sério, e vejo com preocupação as movimentações (de anúncios posteriores a essa distinção) em torno da união bancária e da consagração de novos poderes relativamente aos orçamentos de uns e outros. Olho para essas urgências e vejo uma desnorteada carroça federativa que segue à frente dos bois (que na Europa são por vezes minotauros), pois será preciso, antes de tudo o mais, negociar politicamente esta Europa cheia de gentes e de estádios de desenvolvimento diferentes entre si.

Somos (nós os da Europa) essa velha ninfa múltipla, cheia de encantos e veredas, de grande quantidade de mistérios por Km2 e por século, de grandes zonas de sombra também (muitas dessas).

Imagem destaque: O rapto de Europa de Erasmus Quellinus II

Anúncios