Há muito quem ande preocupado com a linguagem dos portugueses. Que andam desbragados, incontidos, abusivos nas palavras, acusam esses a quem essas palavras se dirigem – os actuais governantes -, mas também alguns dos seus acólitos – Mário Crespo, por exemplo, no seu cada vez mais habitual e muito lamentável estilo de fazer moralismo em vez de jornalismo. E no entanto, nenhum desses detractores do linguarejar popular apontou o dedo a Pedro Passos Coelho quando sem parcimónia acusou o povo de ser “piegas“, ou quando afirmou estar-se nas tintas para as eleições (“que se lixem as eleições“, disse).

As palavras existem para serem usadas. Um gatuno é um ladrão, é um larápio, um bandido que colhe lucros ilegitimamente, geralmente prejudicando alguém. Assim mesmo se define a palavra no dicionário da Língua portuguesa da Porto Editora. O povo usa-a normalmente, pois há gatunos na vida. A palavra tem arestas, é bicuda e certeira, é, enfim, uma boa palavra para o combate político que merecem as circunstâncias – uma arma. Talvez por isso fira tantas sensibilidades, gente que se sente picada, mesmo se ao de leve, por essa pontinha aguda da palavra que corta.

Mário de Carvalho usou-a na boca de uma sua personagem (um Marques) que, contrapondo-a à palavra ladrão, explica que «só aparentemente (…) significam a mesma coisa [pois] gatuno [define] o que se introduz a roubar subtilmente, sem ruído, pela sorrelfa [eis uma outra magnífica palavra da gíria popular], como o gato. (…) Pelo contrário, o que rouba com ruído, com estardalhaço, procedendo como o cão que ladra, chama-se ladrão, que vem de ladrar (…). E conclui o escritor: «O povo é sábio.»

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