Parece cada vez mais claro que a crise, que esta crise, não é passageira, no sentido em que o são períodos de relativa paz política e social marcados por dificuldades conjunturais. Aquilo a que chamamos crise (uns restringindo-se aos problemas “locais” portugueses, outros abrindo a concepção ao espaço do Euro ou do Ocidente) é um problema muito maior do que isso – e dizêmo-lo, com justeza, global. Contudo, se já sabíamos que nos Estados Unidos da América o contingente de pobres – refiro-me a uma percentagem assustadora de pessoas marginalizadas por uma política liberal criadora de falsas oportunidades de ascensão económico-social – tem aumentado de forma exponencial (mais de 50% dos seus jovens recém-licenciados não têm trabalho ou trabalham de forma precária), sabemos agora que também no Canadá a crise está a revolver os fundamentos de uma sociedade cujos modelos estão condenados.

Protestos estudantis no Québec
No Québec, uma greve de estudantes em Março de 2012 revelou a que ponto o que parece não é. “Isto não é uma greve estudantil, é o despertar de uma sociedade”, podia ler-se num cartaz empunhado por um jovem. Nessa manifestação, os jovens insurgiram-se não só contra as propinas, mas sobretudo contra as medidas de austeridade que também no Canadá estão a causar inaudito sofrimento na população – famílias inteiras de desempregados, vítimas da privatização das responsabilidades colectivas. Mais de 200.000 estudantes em Março de 2012, meio-mihão de manifestantes em Maio de 2012, naquela que foi considerada a maior manifestação de todos os tempos ocorrida em Montreal – comparável à manifestação de Lisboa no passado dia 15 de Setembro.

E no entanto, na imprensa canadiana, a generalidade dos cronistas de referência escreveu contra os jovens, considerando-os imaturos e alheados da realidade, “kids in another planet” (o good old paternalismo bafiento), como se eles não a conhecessem, a essa realidade quotidiana que não lhes oferece nem futuro nem esperança, e que justamente os levou a protestar – contra um ensino segregador (e os primeiros protestos foram contra o valor das propinas e as regras de financiamento da banca emprestadora de dinheiro aos estudantes sem meios próprios), contra um ensino dissociado do Conhecimento, afunilando-se em ofertas de formação superior condicionadas pelas necessidade dos mercados dos comércios de tudo – como se o propósito da Educação fosse gerar soldados para as multinacionais.

Criminalização do direito à manifestação
Como consequência dos violentos confrontos ocorridos em Montreal em Março de 2012 entre os manifestantes e a polícia, uma estranha lei emergiu, esvaziando de valor político os protestos dos estudantes, e reduzindo-os à sua expressão menos relevante, criminalizando-os. Fortemente repressiva, até mesmo as polícias foram relutantes em aceitá-la. Em traços gerais: projectos de manifestações com mais de 50 pessoas (como se as manifestações pudessem ser confinadas, como se não fossem corpus imponderáveis) requerem autorização oficial, a que deverá juntar-se um itinerário preciso da manifestação; proibição de manifestação no perímetro de proximidade das faculdades; coimas por desobediência civil podem ascender aos 35.000 dólares canadianos para os manifestantes individuais, e a 125.000 dólares canadianos para os sindicatos ou associações que violem as regras – aumentadas para o dobro para os contumazes. Foi contra o carácter repressivo dessa lei que tanta gente se manifestou em Maio de 2012 em Montreal.

A liberdade de expressão, tão duramente conquistada pelas vítimas dos regimes repressivos da História do Mundo ocidental (nem tão poucos quanto isso, nem tanto assim antigos), não será assim jamais entregue de mão-beijada aos governantes empenhados em reprimi-la. Mesmo se os valores democráticos de 1789 se vêm hoje como nunca cerceados, no Canadá como em Portugal – ironia suprema da globalização de uma ideologia (palavra maldita por estes dias, bem sei) decadente e comprovadamente destrutiva, sem interesse para a caminhada dos Homens. Um ideário bárbaro, apenas capaz de os levar a lugares já conhecidos, num eterno retorno sem virtude alguma.

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