Meu País,
No princípio não eras meu, eras só o país da minha mãe, o que ainda assim não era coisa pouca, pois ela é-te em tudo o que é, apesar de a teres maltratado a vida quase toda, obrigando-a a ir para outro país morrer de saudades tuas – e agora, que tanto precisaria da tua protecção, também não estás à altura desse amor que te dedicou a vida inteira, desprezando-a como à generalidade dos teus filhos mais velhos.

Mas dizia que não era de somenos teres começado por ser esse país de outros que não eu, pois mesmo nascida longe, e herdeira de outras culturas, foi a ti que escolhi: à tua Língua (o teu coração) a que chamo pátria, aquela em que todos os dias escrevo, a que melhor conheço, e que aprendi a amar (apesar dos desgostos constantes a que também a mim me obrigas, raios), sabendo-me hoje parte inexorável daquilo que é a tua identidade, cuja História transporto, na memória das células portuguesas do meu corpo, e na matéria intangível e misteriosa do meu espírito, tão espantosamente (tornado?) português.

E escolhi-te para destino da minha vida quando, depois das viagens da juventude, voltei para junto de ti, pensando que estava tudo por fazer (e estava certa, pois estava tudo por fazer), imaginando-me (tola) insubstituível nessas tarefas que tinhas decerto para me entregar, a mim que queria tanto participar nessa reconstrução do que serias depois do Império. Talvez as minhas raízes profundamente europeias pudessem ser-te úteis – assim imaginava, prospectivando-me necessária nessa tua ascensão depois da queda.

E apesar dos primeiros revezes – e garanto-te que foram duros, pois todas as minhas diferenças pareciam agredir-te, e levaste-me ao tapete vezes consecutivas – voltei a escolher-te quando fui mãe, fazendo da tua Língua (do teu coração, redigo-o) a pátria da minha filha, acalentando a convicção de ser aqui o meu lugar no Mundo, a que a eternidade do nascimento de um filho conferia acrescida certeza.

Mas agora que como nunca surges infernal – és o Inferno para a maioria, como pôde isso acontecer outra vez? – olho para ti e só vejo desolação, miséria, mediocridade, injustiça hedionda, indignação. Vejo os velhos a morrer sozinhos nos montes do Alentejo (enforcam-se nos guarda-fatos), esquecidos de todos nas cidades, doidos de solidão e de medo, e vejo os novos a partir por falta de alternativa, e todos os outros entregues à mais abjecta sobrevivência.

E ligo a tv e que vejo? O primeiro-ministro, um homem jovem eleito pela abstenção, a viver um estranho sonho de poder, a dizer que admira o teu povo. E um tecnocrata versado em Powerpoint contratado para pôr ordem nas tuas finanças (não fosses tu pensar que isto era só Venha a mim) a dizer que o teu povo (o mesmo que esses powerpoints estão a matar) é o melhor do Mundo.

Bem podem admirar-nos: somos admiráveis a resistir, temos alma de barata, já dizia o escritor Alface, mas sobretudo não esquecemos, mesmo quando parece que sim, e 80.000 jovens (o dobro dos que se candidataram ao ensino superior este ano) fazem fila para um programa de tv chamado Casa dos Segredos. Não esquecemos.

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