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Um redondo vocábulo

Sarah Adamopoulos © 2012–2017

Um desejo para 2016: Jornalismo

 

Li há dias um texto dshifte Alexandra Lucas Coelho (jornalista e escritora cujo trabalho muito considero) sobre a mais recente crise no jornal Público e fiquei com a sensação de que Lucas Coelho ainda não tinha verdadeiramente pensado nos problemas com que se confronta o jornalismo. Não, Alexandra, não creio que o jornalismo do futuro (considerado no seu todo, e não particularizando) venha a financiar-se com publicidade digital, ou através de crowdfunding. A filantropia de fundações endinheiradas poderá dar uma ajuda, mas não será por aí, creio.  É que o problema de fundo (o modelo de negócio, para o qual já há soluções, faço notar, e com interesse do ponto de vista da independência editorial, tema que te é tão caro a ti, Alexandra, como a mim própria) não vai desaparecer por via da filantropia que porventura venha a assegurar a sobrevivência do jornal Público. (continuar a ler)

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Um novo Jornalismo de Língua portuguesa

redacção

Sinto que devo explicar-me sobre o que tenho escrito em favor de uma mudança no jornalismo que possa acompanhar a inevitável massificação do uso dos suportes digitais. Apesar dos estudos que dão o suporte papel como ainda sobrevivente (e até mesmo com futuro, em termos gerais e não apenas de nicho, o que me parece completamente absurdo), como por exemplo este, patrocinado pelo Regulador ERC (cuja amostra integra vasta percentagem de pessoas mais velhas, 1/4 do total com mais de 65 anos), interessa-me sobretudo prospectivar. Em tempos de mudança, e de uma mudança que será sem dúvida rápida, outra coisa não faria sentido.

1. Quando referi, nos textos sobre Jornalismo, o velho jornalismo, quero com isso designar não forçosamente os jornalistas mais velhos mas as velhas cabeças: todos os que não fizeram verdadeiramente a actualização que o advento da era digital e a Globalização exigem Isto é, todos os que encaram a Internet apenas como um novo suporte, transpondo para o online os modos de fazer jornalismo que usavam para o papel. Continue reading “Um novo Jornalismo de Língua portuguesa”

O fim do velho jornalismo português

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(c) Valter Vinagre | Posto de trabalho

O jornalismo português, tal como o conhecemos, acabou. O que ainda resta dele dá por estes dias os que serão os últimos suspiros. Infelizmente, muitos jornalistas – e entre eles muitos já formados no paradigma digital -, foram já ou vão proximamente ser afastados do jornalismo, o que é especialmente revoltante, atendendo à mais comum capacitação que os elementos das gerações mais novas têm para o uso das tecnologias da Globalização.

Nas últimas semanas, evidenciando a total ausência de independência e isenção desse jornalismo, agora eloquentemente “esmagado” pelo advento de uma nova situação política nacional que lhe é adversa, várias notícias deram conta de despedimentos colectivos e programas de rescisão de contratos.

Pretende-se nalgum casos prosseguir os projectos originais, e noutros lançar novos. Com muito menos jornalistas, pagando-lhes cada vez menos e limitando-se os projectos, tanto quanto se pode perceber, a reproduzir na Internet os modos de fazer jornalismo usados para o suporte papel pelo velho jornalismo português.

A esse jornalismo anacrónico, agora sob a forma de projectos online, acrescentar-se-ão valências de entretenimento, e também agregadores de notícias, o que constitui, em si mesma, fraca diferenciação relativamente ao que já existe actualmente na Rede e nas redes dela – como são os casos do Facebook e do Twitter, imbatíveis tanto a entreter como a chegar em primeiro lugar.

Daqui a algum tempo, esmorecidos os investidores que financiarão a sobrevivência dos últimos super-quadros e jornalistas do já moribundo jornalismo português, despedir-se-ão mais jornalistas e dar-se-ão explicações muito questionáveis sobre as razões desses fracassos.

A não ser que se perceba, espera-se mais cedo que tarde, que existe já não apenas um novo modelo de negócio para o jornalismo, como também novos modelos de jornalismo para o jornalismo da Globalização. Só essa dupla condição permitirá a sobrevivência dos jornalistas portugueses no mercado do jornalismo de Língua portuguesa.

Newshold: liturgia antes do abate

30 de Novembro de 2015. Num plenário da empresa de Comunicação Social Newshold, proprietária dos jornais Sol e i, anuncia-se oficialmente o despedimento de 2/3 do pessoal. A tarefa é entregue a Mário Ramires, administrador-delegado e antigo jornalista. A seu expresso pedido, o plenário é gravado, e depois, também a seu pedido, o ficheiro áudio dessa gravação é disponibilizado online.

Atente-se no tom extremamente paternalista, autoritário, quase marcial, do orador sem escrúpulos. E no final os jornalistas (e demais funcionários, presume-se) batem palmas. Levados por uma retórica de estranhas qualidades, ouvem o inominável e no final … aplaudem. Mesmo tendo-lhes sido dito que 2/3 vão ser mesmo despedidos, aplaudem. Mesmo tendo concordado (aparentemente incapazes de confrontar o administrador-delegado com o enunciado inenarrável, talvez procurando evitar ser piegas…) em assinar um documento que dispensa a Newshold de apresentação de uma caução/garantia sobre créditos a haver, aplaudem.

Aplaudem, assim, com investimento pessoal grandemente incompreensível, um projecto de uma empresa em processo de descapitalização que, segundo anunciado por Ramires, apenas poderá dar trabalho a 1/3 deles, e sobre o qual nada sabem – apenas que a sua viabilização depende da sua boa vontade: prescindindo do direito legal de indemnização por antiguidade e oferecendo parte do valor dos futuros ordenados (entre outras cedências referidas pelo administrador).

Dizer também, já agora, que há 7 anos, quando os accionistas da Newshold investiram dinheiro naquele jornalismo, já não fazia qualquer sentido financiar projectos em suporte papel e no modelo de negócio sustentado na publicidade. E no entanto houve investidores. O que é que isto nos diz sobre a independência do jornalismo entretanto praticado? Um caso a requerer investigação. Por várias razões.

Adenda: um texto de leitura fundamental aqui.

Sobre a impugnação política do Governo de António Costa

Tal como se previa, a coligação PSD/CDS decidiu prosseguir com a impugnação política do Governo de António Costa. Aparentemente incapaz (ou conjunturalmente impreparada, hesito) para uma oposição digna, mergulhada num tormento anacrónico e sem relação com o tempo de hoje – eternizado até aos nossos dias por ressentimentos resilientes e jamais resolvidos – a PàF insiste na bandeira da ilegitimidade da maioria parlamentar convergente que tornou possível o XXI Governo.

A iniciativa de apresentação de uma moção de rejeição ao programa do actual Governo nada teria de especial se não constituísse uma sequência lógica da comemoração que o PSD e o CDS insistiram em realizar no parlamento português a 25 de Novembro passado. Uma efeméride a que António Ramalho Eanes se furtou, ciente de que o contra-golpe levado a cabo a 25 de Novembro de 1975 foi o resultado do golpe ocorrido a 11 de Março desse ano, que foi quanto a ele entretanto o resultado do 28 de Setembro do ano anterior. Ciente, também, de que pôr o 25 de Novembro no mesmo plano de memória que o 25 de Abril é um absurdo.

E escrevo-o apesar de pensar que nisso tem também grande responsabilidade o PCP, por ter tratado o PREC como uma ideia de apogeu democrático e feito do 25 de Novembro um assunto tabu.

Seria bom ultrapassar isso. De um lado como de outro.

Enunciada, aliás, como uma forma de combater o que a PàF insiste em encarar como um executivo ferido de ilegitimidade democrática, a moção de rejeição da direita, assim apresentada, transporta um lamentável legado a requerer urgente saneamento da actual vida política. Saneamento como cura, quero dizer. Saneamento para dizer superação.

Na democracia portuguesa cabe também o PCP, tal como enunciado no desfecho do 25 de Novembro, justamente. Um lugar que tem a legitimidade histórica conferida não apenas pela tenaz resistência que fez à ditadura, como também pela participação dos comunistas na vida política do país desde 1975. Um lugar que tem tido sobretudo expressão nos poderes locais que conquistou (circunstância que o CDS não conheceu, diga-se, já agora, em abono da realidade dos factos), e a que agora o PCP acrescentou a decisão de viabilizar parlamentarmente o Governo do PS.

“Um tempo novo”, como anunciado por António Costa no discurso de tomada de posse, com que o PSD e o CDS terão nalgum ponto de começar a lidar com maior elevação democrática.

Saída de emergência para o jornalismo: a subscrição paga

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Sabemos que o modelo de negócio que sustentou o jornalismo no século XX já se extinguiu, para dar lugar a algo de profundamente destruidor do jornalismo: o chamado “jornalismo do cidadão”, que, a existir, transformaria em jornalistas todos os cidadãos, incluídos os mais empreendedores que viram nessa terra-de-ninguém (que deriva de uma confusão deliberada entre jornalismo e comunicação) uma oportunidade de negócio.

Atendendo a que o mercado publicitário investe sobretudo em conteúdos populares, exigindo milhares de views para colocar na Rede os seus diferentes produtos de grande consumo, isso significa, na escala global em que nos inserimos, que uma publicação com verdadeiro interesse jornalístico sofre à partida uma desvalorização sem relação com o seu valor real. Por essa razão também, o velho modelo de negócio não é compatível com as necessidades implicadas pela produção de informação de qualidade e independente dos interesses económicos e outros.

Sucedendo ao modelo assente na publicidade, vemos emergir (ainda tímido, por falta de pensamento sobre ele e know-how) o modelo por subscrição paga. Porém, apesar de haver já alguns bons exemplos no Mundo, o novo modelo só vai vingar quando os investidores em publicações feitas por jornalistas profissionais compreenderem que não devem competir com os actuais produtores indiferenciados de conteúdos de informação. Designadamente circunscrevendo-se ao papel de agregadores de notícias. Notícias muito vezes não-confirmadas (fazendo tábua rasa das práticas próprias e necessárias ao jornalismo), embora reproduzidas em toda a parte, colaborando dessa forma para a desinformação generalizada. Um exemplo do que digo aqui.

O modelo por subscrição é o único capaz de garantir a independência do jornalismo, assegurando o financiamento das despesas com o próprio jornalismo – uma vez que a reportagem e a investigação constituem os géneros mais dispendiosos, o que, aliás, explica parcialmente o desinvestimento em jornalismo a que temos vindo a assistir desde o advento da Era digital.

Será pois necessário (e até mesmo urgente) investir em jornalismo, de nicho ou generalista, pago pelos seus subscritores e realizado por profissionais e apenas – considerando-se ser esse o único modelo capaz de enfrentar o mercado mundial, tornando os projectos auto-suficientes, e, desse modo, protegendo-os da actual extrema desregulação e volatilidade a que está sujeito o comércio de informação na Internet (pois disso se trata quando não é jornalismo).

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Europe is lost (Kate Tempest)

Jornalismo literário: Ferreira Fernandes

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(c) Direitos reservados

Sei coisas sobre 1977 em Angola, o chamado “estalinismo negro”, os excessos a ceifar a vida dos divergentes, aquele soldado a marchar como se tivesse corda para sempre, caminhando se preciso sobre os cadáveres, obstinado em marchar para sempre, em nome de uma bandeira cujos valores mais virtuosos desonrou.

Sei estas coisas porque o jornalismo me tem posto Angola no caminho. A sua História atravessa-se constantemente na minha própria, chega a ser intrigante para alguém como eu, que não tenho uma história pessoal com África, que venho de demasiado a Norte para saber o Sul e que me disperso (e encanto) por tantos outros interesses e lugares humanos.

Para saber o Sul como por exemplo Isabela Figueiredo, a autora de Caderno de memórias coloniais, pedaço literário que considero excepcional, antes e para além do seu evidente valor documental: uma obra literária (isto é, feita com a verdade da arte chamada literatura) que é também um testemunho. Sobre Moçambique, no caso.

Ou para saber o Sul como Ferreira Fernandes, reduto de luz sobre a memória recente de quando Angola ainda era Portugal, ali a iluminar a redacção do Diário de Notícias, para que não nos sejam amputadas as lembranças que não podem ser esquecidas. Incluindo as que lembram tempos mais próximos já, de quando Angola já não era Portugal. Pois o nome van Dunem transporta uma memória, não há como rasurá-la: o passado reemerge mesmo que não queiramos.

Felizmente, ainda há jornalismo emocionante que pode ser feito sem sair da redacção: crónicas literárias à melhor “moda antiga”, para dizer jornalismo literário, ou seja, prosa duplamente escrita com a verdade, e ainda por cima, sorte a nossa, com as palavras mais justas, colocadas nos lugares mais certos.

A crónica de hoje de Ferreira Fernandes, a não perder, aqui.

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